Correio Brasiliense publica matéria sobre recente artigo de correntes induzidas na região do eletrojato equatorial

Texto de Roberta Machado

Um céu ensolarado pode esconder um mau tempo capaz de causar tantos prejuízos quanto uma chuva de granizo. Especialistas que estudaram o efeito do clima espacial sobre os países localizados na Linha do Equador alertam que as tempestades de energia provocadas pelo astro-rei podem afetar a infraestrutura elétrica de países localizados em baixa latitude, como é o caso do Brasil.

Até então, acreditava-se que essa posição protegia dos fenômenos geomagnéticos que afetam redes de transmissão e satélites nas nações mais próximas dos polos, mas uma parte do território nacional pode sofrer mais danos do que se pensava. O responsável por colocar o Brasil na linha de tiro das variações solares é o eletrojato equatorial, uma corrente elétrica que cruza a ionosfera a 100km do chão. Esse fluxo de energia circula o Equador de acordo com a posição da Terra em relação ao Sol. Quando atravessa o Brasil, o jato passa pelo território do Pará até sair pelo Acre, em direção ao Peru. Essa corrente estaria suscetível aos choques de energia que vêm do Sol em direção à Terra, podendo causar interferência nos grandes sistemas elétricos da região.

As partículas carregadas enviadas pelo Sol costumam entrar em choque com a magnetosfera do planeta, rebatendo o vento solar para os polos. No entanto, o fenômeno também pode causar correntes geomagneticamente induzidas através de estruturas condutoras, como fios de transmissão de energia e, até mesmo, canos. A recente análise de 14 anos de dados coletados entre a Terra e o Sol mostrou que esse fenômeno pode ser amplificado pelo eletrojato, afetando países que passam sob ele, como o Brasil, outras nações da América do Sul, alguns territórios africanos e o sul da Ásia. O trabalho foi publicado na mais recente edição da revista Geophysical Research Letters. “O eletrojato equatorial está sempre mudando, então, essas correntes geomagneticamente induzidas não são um problema cotidiano. No entanto, os choques no vento solar que nós pesquisamos, que, às vezes, são associados com tempestades geomagnéticas, podem fazer com que o eletrojato mude de repente, dando origem a níveis elevados da corrente no Equador”, explica Brett Carter, professor visitante na Universidade de Boston, nos Estados Unidos, e principal autor do trabalho. Esses eventos normalmente passam desapercebidos, mas a energia descarregada sobre o planeta pode causar interferência ou sobrecarga em infraestruturas como linhas de transmissão de energia, sistemas de orientação de aeronaves, aparelhos usados na agricultura, transmissores de rádio, sistemas de comunicação por satélite, sinais de GPS e oleodutos. “É possível que esses eventos tenham causado problemas ou quedas de energia, mas eles teriam passado desapercebidos, simplesmente porque nunca pensamos realmente em procurá-los no Equador”, acredita Carter.

Monitoramento

A forma como os eventos solares poderiam afetar a rede elétrica dependeria das características de cada estrutura. Além da localização e da condutividade elétrica do solo, deve ser considerada a capacidade da linha de transmissão: quanto mais eletricidade passar pelos fios, maior a chance de uma sobrecarga ser causada pelo clima espacial.

“A rede elétrica é como se fosse um grande loop. Se você fizer o campo magnético variar dentro dessa rede, ela induz correntes bem mais altas do que ela pode suportar. Aumenta a corrente, causando até mesmo a explosão dos transformadores”, explica José Leonardo Ferreira, professor do Laboratório de Plasma do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB). Assim como furacões, temporais e longos períodos de seca, os eventos do clima espacial precisam ser constantemente acompanhados pelos países mais afetados. “O estudo só vem confirmar a necessidade deum centro de monitoramento e estudo do clima espacial no Brasil. Muitas pessoas poderiam, inicialmente, pensar que isso não seria muito necessário, porque o Brasil está em sua maioria em baixas e médias latitudes, mas a gente sabe da existência do eletrojato e das consequências que ele pode trazer”, avalia Lívia Alves, física do Programa de Estudo e Monitoramento Brasileiro do Clima Espacial, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Embrace-Inpe). O grupo é o responsável no país pelo acompanhamento do clima espacial e dos fenômenos solares que afetam o planeta e publica boletins diários com previsões. O trabalho é feito por meio de sensores instalados em diferentes regiões do Brasil—a instalação de um magnetômetro na região do eixo geomagnético está prevista para o fim deste ano. Recentemente, o projeto também lançou um aplicativo que fornece informações sobre tempestades geomagnéticas, explosões solares e qualquer outro evento que possa afetar os sistemas tecnológicos do país. Alves afirma que o Brasil não sofreu nenhum efeito grave causado por uma tempestade solar, mas que, eventualmente, o monitoramento aponta variações que podem afetar a rede elétrica. Ela ressalta que a corrente gerada pelas variações de campo geomagnéticos costuma ser bem pequena se comparada à que circula na rede elétrica, mas pesquisas apontam para os efeitos negativos causados pela exposição contínua a essas variações. “Você tem um efeito cumulativo que, a longo prazo, pode causar um envelhecimento precoce dessas estruturas”, afirma a física. Para evitar prejuízos, recomenda-se que as concessionárias responsáveis pelas linhas de transmissão estudem as características geomagnéticas do local onde será instalada a rede e adotem certas precauções, como a instalação de um sistema de banco de capacitores, quando necessário. Quando o investimento não for possível, o jeito é se manter alerta para os sinais que vêm do céu e tomar providências para amenizar os efeitos do clima espacial no caso de um evento de grande impacto.

Fonte: Correio Brasiliense – Brasília, segunda-feira, 31 de agosto de 2015

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